Conversas com Chá

E hoje quem escreve a coluna As Gurias é uma pessoa super querida. Carla Saueressig nos conta “Conversas com Chá”.

Conversas com Chá

Em primeiro lugar, Carla é a maior especialista brasileira no assunto.

Foi proprietária por 18 anos de A Loja do Chá TG – a primeira e maior loja em variedade de chás e infusões da América do Sul.

Criadora, coordenadora e professora do primeiro curso de formação de Sommelier de Chás no Brasil.

Do mesmo modo, ministra e organiza há 19 anos aulas, consultorias, eventos.

Já desenvolveu mais de 100 blends da bebida para marcas.

Igualmente, foi pioneira no país a ajudar grandes chefs de cozinha a criarem receitas com chá.

Assim, por exemplo, o enigmático chá chinês de aroma e sabor defumados, Lapsang Souchong, compõe o rosbife assinado pela chef Helena Rizzo do restaurante Maní.

Conversas com Chá

Bem como, o matchá chinês foi parar nas receitas de tortas e bolos da premiada confeiteira Vivianne Wakuda. O chá verde ganhou um sabor especial na Gelato Boutique.

Bebidas como sakê, espumante, gin, além de outros destilados e fermentado também ganharam receitas com chá.

Então eu poderia pedir pra ela dar uma verdadeira aula de chá, mas essa coluna tem outra pegada.

As Gurias é uma coluna escrita por mulheres pra falar da vida! Aquela linda que acontece em torno da boa mesa, dos amigos, das viagens, dos amores.

Então meu desafio pra ela foi diferente, disse:

“Carla não quero que você escreva sobre chás. Quero que escreva sobre histórias de vida em torno de uma xícara de chá”.

Ela me respondeu: Bah guri! (preciso dizer que é gaúcha?) nunca escrevi sobre isso!”

Pois, escreveu super bem! São emocionantes essas “Conversas com Chá”.

Convido você a preparar sua xícara e ler essas histórias.

Conversas com Chá

Conversas com Chá

por Carla Saueressig

“Compartilhar um Chá é compartilhar sentimentos”

Nos 18 anos da “A Loja do Chá” muitas histórias de clientes e amigos(as) que se encontraram na Loja e passaram momentos mágicos. Memórias para alegrar a alma.

Conversas com Chá

Conversas com Chá: “Chá com a Neta”

Uma avó, que gostava de tomar chá, resolveu convidar a neta para introduzi-la nesse hábito e compartilhar suas histórias de vida.

Elas entravam no mundo da avó e degustavam chás e comidinhas.

A avó contava suas experiências e a neta assistia a este filme de vida com um olhar feliz e atento.

Ficávamos olhando a cena, esperando a hora certa de servir mais chás e petiscos, sem interromper a intimidade delas e imaginando as belas experiências vividas pela avó.

Num destes encontros fui convidada a participar da conversa.

A avó contou como conheceu o avô num baile da cidade. Naquela época era assim.

As pessoas iam à bailes para conhecer futuros namorados e todos tinham que saber dançar. Primeiro uma conversa e depois bailar.

Claro que as mulheres e os homens conversavam entre si e dessa forma tentavam saber algo dos pretendentes.

Um amigo do avô olhou para a avó e disse para ele: “Aquela ali vou namorar, estou só esperando para conversar com ela.”

O avô se deu conta que era a pessoa que ele estava interessado – a avó – e tratou de apressar a conversa.

O amigo pensou que ele estava ajudando ele, mas o avô estava interessado na moça.

Conversaram, dançaram, noivaram e casaram. Em suma, o avô perdeu o amigo e ganhou a esposa.

Comecei a rir muito, pois com a minha mãe e o meu pai aconteceu a mesma coisa. Como as histórias se repetem…

Outras pessoas, outras cidades, outras experiências e o mesmo filme.

Vivências quase iguais que fazem parte das histórias das pessoas e nos conectam, de uma certa forma, com nossos sentimentos.

Brindamos com chá e nos abraçamos! A comunhão com chá.

Conversas com Chá

Conversas com Chá:  “Reencontro de grandes Amigas”

Duas amigas que, por alguma desavença no passado estavam sem se falar, resolveram marcar, depois de muitos anos, um reencontro com chá na Loja.

Chegaram ansiosas, tensas, se cumprimentaram e pediram um chá. O mesmo.

Talvez para mostrar que a reconexão começava aí.

Os primeiros goles, perguntas gerais e uma conversa que ainda estava morna.

Segundo chá…também o mesmo para as duas.

Agora, mais à vontade, os rostos começaram a ficar mais relaxados e a conversa rolava mais rapidamente.

Logo depois, veio a vontade de saber o que tinha acontecido com cada uma neste não convívio.

Mais chás e doces para celebrar e perceber que o tempo perdido se resgata rapidamente quando temos sentimentos.

Risadas e um drinque com chá para comemorar a amizade que esteve sempre presente.

Elas não viram o tempo passar, anoiteceu e a Loja estava fechando.

Delicadamente fui avisar que a Loja fecharia e perguntar se elas queriam mais um chá.

Então elas me contaram que fazia muito tempo que não se falavam e me convidaram para tomar um último chá com elas.

Que prazer é poder voltar com uma bela amizade!

Quantas vezes fechei a Loja e me sentei com clientes para tomar um último chá.

Fechar o dia dessa forma, compartilhando com pessoas que só precisam de um chá para serem felizes.

Conversas com Chá

Conversas com Chá:  “Cinzas Poderosas”

Uma turminha de viúvas com mais de 80 anos se encontrava toda semana.

Amigas há mais de 60 anos, quando ainda eram adolescentes, solteiras, não deixavam de tomar um chá juntas, pelo menos, uma vez por semana.

Irmãs de alma e coração que sabiam dos começos de namoro de cada uma, dos momentos difíceis, dos casamentos, da chegada dos filhos, dos netos, das perdas dos maridos, dos bisnetos…

Sabiam que a amizade era para sempre e segurava, antes de mais nada, todas as barras passadas, presentes e futuras.

Relembravam muitas bobagens feitas e cultivavam “loucurinhas” que deixavam a idade mais madura divertida.

Não tinha tempo feio. Qualquer problema que alguma delas tivesse se transformava em fumaça.

Qual é o problema que suporta a força de um grupo de amigas?

As gargalhadas e a alegria que emanava do grupo era contagiante.

Muitos clientes olhavam, com prazer, tentando até escutar algumas conversas.

Às vezes me chamavam para compartilhar alguma loucura saudável que tinham feito.

Sempre diziam que a Loja emanava uma energia positiva pelas suas ervas, chás, comidinhas…

Definitivamente para elas era o melhor lugar para se sentar e tomar um chá.

Numa destas tardes alegres, me chamaram afinal para fazer um comunicado:

“Quando alguma de nós morrer, vamos espalhar um pouco das cinzas na Loja para que nossos espíritos fiquem para sempre tomando um chá.”

Foi uma das mais lindas frases que ouvi.

A amizade e o amor delas ficaria para sempre conosco, como um espírito do bem a sorrir pelos cantinhos.

Conversas com Chá

Conversas com Chá: “Música, Chocolate e Chá”

Todos os anos, na Páscoa, criava um Blend de Chá ou Ervas para harmonizar com chocolate.

Foram muitos blends florais, frutados, com especiarias, herbais que embalaram os chocolates de diversas Páscoas.

Um dia a Claudia, da Chocolat du Jour, que adorava estes blends para combinar com chocolate, me procurou para fazer uma infusão de cacau.

Não como muitas que já tínhamos tomado e não tinham a potência do chocolate. Queríamos um blend que aproveitasse as sobras do cacau, sustentável, com sabor marcante.

Depois de algumas misturas surgiu então o Chocochá.

Uma infusão com sabor forte de cacau, que agradou demais os clientes.

Por fim, recebeu uma medalha de prata em Londres na categoria “Infusões” e conquistou, também, o público japonês sendo exportado para o Japão.

Quando começamos com o curso de Sommeliers de Chá, tínhamos uma aula de chocolate com harmonizações com chás e infusões.

Portanto, a turma foi convidada a visitar a fábrica da Chocolat du Jour para entender o processo de fabricação do chocolate. Foi incrível!

Desde a amêndoa do cacau até os lindos bombons – bean to bar.

Aquele cheiro de chocolate fresco, os funcionários trabalhando com os mais diversos pralinés, era um mundo de sonho.

Até que então a Marília Vargas, soprano maravilhosa, que era aluna do curso começou a cantar as Bachianas Brasileiras Nº 5 do Villa-Lobos em plena fábrica.

Concluindo, realmente estávamos no paraíso. Aquele aroma, aquele sabor e uma música linda para acompanhar.

Os funcionários pararam para se deliciar com a música e um deles começou a chorar de emoção.

Qual foi a nossa surpresa quando os colegas disseram que ele era surdo.

E o que ele disse: “Eu consegui sentir a música.” Que lindo! Sentir a música.

Alessander Guerra

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