>Reflexões de uma chef em Portugal

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Viagens são emocionantes! Viajamos pelos mais diversos motivos e sempre com expectativas. Em cada viagem deixamos pegadas pelos lugares em que passamos e tais lugares também nos fazem suas marcas. Impossível não voltar transformado! Até porque a nossa vida é uma viagem. Estamos sempre numa busca, perambulando por um caminho tortuoso que não está em lugar algum, senão dentro de nós mesmos. Na maioria das vezes precisamos ir muito longe para encontrar o que sempre esteve ao nosso lado.

Adoro pessoas corajosas, pessoas que não tem medo de reformular a vida. Não há um caminho, há vários. Até estradinhas difíceis, que parecem intermináveis, tem seus atalhos.

Conversando com a chef Patricia Fontana, há uns tempos, fiquei sabendo que ela estava deixando um grande emprego de chef (veja o post) para se aventurar numa nova busca.

Acho fascinante sair da zona de conforto, até porque, na maioria das vezes, ela deixa de ser confortável.

Próxima parada Lisboa (Portugal) a Patricia pediu ao chef português Vitor Sobral um “estágio” na sua Tasca da Esquina.  E eu pedi a ela que nos contasse uma história, um pedacinho da sua experiência por lá.

Fala Patricia!

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“Cá estou eu em terras de reis, rainhas e descobridores, me encaixo nesta última categoria. Descobridora, foi isto que me tornei em terras de Cabral. A começar pela cidade em si, cheia de ruelas, becos e história, e nada de contos de fadas.

Tudo me remete a nossa curta história do Brasil, terra rica, que muito forneceu para essas terras cá distantes. Penso o que seria de nós se nosso ouro não tivesse atravessado o Atlântico, capitaneado pela nossas nobres madeiras, por aí, terras tupiniquins, não tínhamos reis e rainhas, mas tínhamos nossas riquezas e que cá ainda são tão nobres… Chega de devaneios de caravelas e vamos aos trabalhos.

Desta vez eu me pus a cruzar o Atlântico para desbravar a cozinha portuguesa. Me deparei com uma cozinha simples! Quase que imaculada, tal qual a terra descoberta. Vejo e vibro com a devida importância dada ao ingrediente, sem rebuscamento, sem douração, tudo muito simples, mas forte, com personalidade.

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Estou em uma tasca, tudo muito organizado, sem desperdícios, como a Europa sempre nos mostrou, e lamento que ainda não conseguimos compreender. E não me venham com esse papo de quem já passou por uma guerra e blablabla! Trata-se de consciência e principalmente bom senso, fato.

Como toda boa cozinha tem suas picuinhas, egos feridos e natação, pois o que seria de nós cozinheiros sem nosso esporte preferido. E como todo restaurante que se preze temos a "guerra" salão x cozinha.

Mas uma coisa me causa inveja, o frescor dos ingredientes, a sazonalidade, o simplismo. Quero deixar claro que estou relatando uma tasca, no mais puro sentido da palavra.

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O bacalhau tem cara (ops, até por cá não vi a cara de tal peixe) de bacalhau, moelas de tal e assim por diante. Não me olhem torto apreciadores da cozinha de autor, pois no meu coração tem mais do que um espaço para ela! Mas estou aqui para resgatar a essência da cozinha, e por mais que é sabido que somos um país multicultural, temos um pai e com certeza foram dele nossas primeiras lembranças gastronômicas vindas deste lado do oceano,mais importante ainda temos uma mãe, brasileira, que nos deixou uma variedade infindável de ingredientes, que enlouqueceu e até hoje enlouquece os estrangeiros que por aí chegam, muitos já fizemos o favor de dar fim e outros ainda nem descobrimos.

Bem resolvi mandar notícias, pois vim parar hoje em um restaurante muito gira ( aprendi por aqui = muito bacana), de um iugoslavo, Ljubomir Stanisic, chef na essência da palavra, está em Lisboa há 14 anos e por incrível que pareça nem sotaque tem! Seu restaurante "Bistro 100 maneiras” me inspirou. foto 1 thumb%25255B4%25255D - >Reflexões de uma chef em Portugal

A burek iugoslava, acompanhada por bolinhos tão tipicamente portugueses, me inspiraram a mandar notícias e a acreditar que a globalização é fato mais que real e dela temos de tirar todo proveito possível, crescer e fazer como nossos co-irmãos, descobrir e achar que o horizonte não tem fim!

Tenho certeza que voltarei com meu desejo de cozinha simples, de sabor, de alma mais pulsante ainda. Quando acabou o Mesa Tendência estava já por vir para cá, estava em um momento de reflexão, que se intensificou mais ainda por aqui, a solidão nos faz desenterrar lembranças, pensamentos e conversamos com nós mesmo onde as respostas vem sem som, mas vem de dentro.

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Não sei o que se passará agora, estou prestes a ir para Barcelona, onde passarei 10 dias, tenho certeza que novas reflexões surgirão, muitas das construídas aqui cairão por terra, outras se fortificarão. Quando retornar ao Brasil, estaremos às vésperas de um ano novo, que para mim será realmente novo, em busca de novos desafios. Com a certeza que podemos sim recuperar sabores perdidos, receitas antigas, juntamente com pequenos produtores, seus produtos desconhecidos e respectivas regiões. Produtos de altíssima qualidade, mas que não são reconhecidos devido a ausência de uma marca com notoriedade.

Estou adorando este tempo, foi muito importante essa vinda para cá, eu realmente amo cozinhar!!!!!!!!

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P.S. : Perguntei aos "tugas", isso mesmo eles se denominam assim, o que era uma Tasca, e essa foi a resposta: “Um lugar sem luxo, simples, onde os amigos se encontram para conversar, dividir petisco e se divertir. Comida simples, servida em porções.” A "zuca", assim que eles nos chamam, entendeu! E pensei, infelizmente no Brasil, as tascas não conseguem seguir esse conceito, pois os preços por aí realmente são bem maiores dos praticados por aqui.
Segue um link que acho que pode clarear o entendimento de tasca.

Bjs e até breve

Patricia

Fotos: Patricia Fontana

Alessander Guerra

3 Comentários

  1. >Patricia, alem de excelente cozinheira, voce é excepcional escritora,adorei o texto magnifico e tambem as lindas fotos

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